sábado, 23 de fevereiro de 2008

O PODER DA ELITE

O PODER DA ELITE¹

Luiz Etevaldo da Silva*

Família de trabalhadores sai de casa, visitar amigos, ao retornar para casa descobre que os larápios haviam arrombado sua residência e levado televisão, geladeira, fogão, roupas, objetos de cozinha, ou seja, levaram quase tudo, que tinham comprado com imensas dificuldades, à prestações ao longo de anos. Diante do inesperado e do desespero, resolveram registrar o fato na polícia. No outro dia, estavam na frente da casa cerca de 700 policiais militares, civis e federais, com homens do Batalhão de Operações Especiais, para iniciar uma operação de busca e apreensão dos objetos furtados. Tudo organizado com a elite da inteligência das polícias gaúcha, com rapidez para elucidar o fato com a maior brevidade.

Que tal se o acontecimento, imaginado acima, tivesse acontecido, como na “fantástica” operação das polícias (militar, civil e federal) na ocasião da entrada, no dia 17/01/08, de cerca de 400 integrantes do movimento dos sem-terras (MST), na fazenda Coqueiros, em Coqueiros do Sul (RS), em busca de “suposto” furto de objetos e dinheiro na ocasião de chegada ao local. Será que um cidadão urbano tivesse sido vítima de furtos em sua residência teria todo este aparato policial para tentar recuperar seus bens? Eu não conheço nenhum caso semelhante que tivesse tanta atenção por parte das autoridades de segurança pública. Minha hipótese provisória é que isto aconteceu com os sem-terras porque eles são símbolos de luta contra o “câncer social” da estrutura agrária brasileira durante cinco séculos, que é o latifúndio.

O aparato policial no fundo, provavelmente, não era somente para recuperar os supostos objetos furtados, mas um movimento simbólico do poder da elite gaúcha que tem seus interlocutores nas instâncias legais do poder constituído. A polícia apenas cumpriu ordens superiores. Na história do Brasil é possível encontrar fenômenos semelhantes de uso da violência desnecessária apenas para mostrar a força dos grupos de elite econômica e política, que controla poderes do Estado e, desta forma, procura amedrontar os movimentos sociais. Para defender os cidadãos no seu cotidiano não existe estrutura policial suficiente, mas para assustar os movimentos reivindicatórios de cidadania é montada operação pomposa, com cobertura das grandes mídias, como uma gravação de cenas de um filme, de uma novela global. Quanto foi gasto nesta operação que podia ser utilizado para pagar melhores salários aos policiais, equipar melhor as viaturas de atendimento diário, de aquisição de tecnologias para fazer frente a criminalidade.

Classifico este fenômeno sociológico e político como reflexo do subdesenvolvimento brasileiro, das desigualdades, da concentração de renda e riqueza, dos acessos diferenciados à justiça pelos que tem capital e os trabalhadores comuns. É um a aberração no ponto de vista da cidadania, mas não é novidade. O poder da elite num país subdesenvolvido é muito grande, por isso que ela perpetua-se com seus privilégios, mantém inalterada a estrutura e os processos sociais e políticos no decorrer dos tempos. Esta operação é uma demonstração da capacidade de defender seus interesses por parte da elite política e econômica. É o conservadorismo mostrando sua força militar e política. Cabe aos movimentos sociais aprofundar o entendimento deste fenômeno para construir estratégias e táticas para engendrar a contra-hegemonia. A luta por cidadania tem que continuar!
¹.Texto publicado no Jornal da Manhã ( Ijuí/RS, dia 22/01/08, www.jornaldamanhaijui.com)
*Professor

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